Crédito: André Ligeiro
Casa Chandon mostra como se constrói marca no vinho
Essa semana eu vivi a experiência de branding no vinho mais impressionante, e olha que eu venho do marketing. Foi na Casa Chandon, que voltou a São Paulo depois de passar por Rio, Recife e Brasília e ocupou um casarão em Higienópolis, de 27 de julho a 8 de agosto. O que me pegou não foi só o bom gosto, foi a obsessão com o detalhe. Daria um livro falar sobre cada um desses detalhes, mas vou destacar: o nome de cada colaborador num crachá de miçanga feito à mão, os uniformes da equipe, a experiência sensorial na sala de degustação guiada, o design de interiores da casa assinado pelo Estúdio Guto Requena. Um nível de investimento e de cuidado que eu não tinha visto numa marca de vinho conversando com o consumidor final. E é aí que mora a estratégia. A Chandon virou sinônimo de espumante premium no Brasil, é a marca mais forte do segmento, e muita gente que bebe nem sabe que não é champanhe. Ela é a porta de entrada da LVMH para o mundo das bolhas. A Casa Chandon é essa porta montada em tamanho real.
E dava para ver os dois níveis na mesma casa. De um lado, o portfólio que todo mundo conhece do mercado: Garden Spritz, Brut Rosé, Excellence. A entrada. De outro, os espumantes exclusivos, de tiragem minúscula, que só saem para quem vai até lá: o Névoa das Encantadas, de parcela única, com apenas 2.800 garrafas, e o Blanc de Blanc 100% Riesling Itálico, de Monte Belo do Sul. Não resisti e trouxe os dois para casa. São vinhos que homenageiam os viticultores artesãos, e o enólogo Marcio Dalle conduziu a degustação transmitindo a emoção do trabalho com as comunidades de Encruzilhada do Sul e Garibaldi.
O menu foi assinado pela chef nordestina Cafira Foz, do restaurante Fitó, e teve cozinha de sertão harmonizada com os espumantes: cajuína dividindo a mesa com Chandon, baião de dois ao lado do Excellence. E o talk da comunidade teve a Paula Theotonio, jornalista pernambucana e voz do Vale do São Francisco. Numa coluna sobre a Casa Chandon, a Paula resumiu o que eu senti ali: "produtos podem ser copiados; mas conexões verdadeiras, pertencimento e experiências memoráveis, não." Num universo que costuma respirar só Sudeste, a Chandon abriu a mesa para outras geografias do Brasil.

Crédito: Pridia
A estratégia tem dado certo pra LVMH. A divisão de champanhe e vinhos da empresa voltou a crescer 7% no primeiro semestre, revertendo a queda de 2025, segundo a Vinetur. O topo do mercado não sumiu, ficou mais seletivo, e aposta pesado na experiência para fisgar quem ainda vai chegar.
(Fontes: Casa Chandon São Paulo, 5ª edição, Casa Higienópolis | ISTOÉ Dinheiro, Névoa das Encantadas | Vinetur, resultados da LVMH | Paula Theotonio, coluna no Correio, 19/jul | vivência da autora)

Mapa do vinho brasileiro nunca foi tão grande
A 34ª Avaliação Nacional de Vinhos, organizada pela Associação Brasileira de Enologia (ABE), bateu recorde: foram 569 amostras de 84 vinícolas, de 10 estados mais o Distrito Federal. E não é um pico isolado, é o terceiro recorde seguido: em 2024 foram 472 amostras de 67 vinícolas, no ano passado subiu para 536 de 76, e agora 569 de 84. O mapa se abriu junto: eram sete estados e o Distrito Federal em 2024, oito e o DF no ano passado, e dez e o DF agora, com a estreia de Pernambuco. A prova não só cresce, ela se espalha.
O que isso desenha é uma vitivinicultura que deixou de caber num estado só. O Rio Grande do Sul segue como o maior, mas agora dividem a mesa Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. Nas palavras do presidente da ABE, Mario Lucas Ieggli, a amplitude mostra "a força e a maturidade" do vinho brasileiro.
(Fonte: Notícias Agrícolas | Avaliação Nacional de Vinhos / ABE, 06/ago)

Malu Sevieri
Todo mundo fala da premiumização pelo topo: o consumidor que já sabe o que gosta e sobe para o rótulo mais caro. Mas quem me abriu a cabeça essa semana foi a Malu Sevieri, CEO da Emme Brasil e diretora da ProWine São Paulo, em entrevista ao jornalista Daniel Buarque, na Bloomberg Línea. Para ela, existem dois consumidores, e o crescimento de verdade, em volume, não está no topo. Está na base, na pessoa que sai do vinho de mesa doce e cruza pela primeira vez para o vinho seco.
E essa base é gigante. Segundo Felipe Galtaroça, da Ideal BI, o vinho de mesa responde por 58% do volume comercializado no Brasil e por 29% do faturamento, algo como R$ 5,6 bilhões por ano. É o comum, de uva americana, muitas vezes suave, que o enófilo torceu o nariz por décadas. O consumidor dele, em geral classe C, nem distingue de mesa de fino: para ele, é tudo vinho. E aqui está o ponto: esse vinho de mesa também está premiumizando, trocando o garrafão por rótulos elaborados. A elitização não acontece só lá em cima, acontece na base.
Para importador, varejo e vinícola, são dois mercados, dois momentos, duas estratégias. E a mais estratégica, no longo prazo, talvez seja a menos glamourosa: como diz o próprio Galtaroça, se o vinho não conquistar quem está entrando agora, o país fica sem mercado no futuro. A Malu resume com uma frase: ou tem programa de educação, ou não funciona.
(Fontes: Daniel Buarque, Bloomberg Línea, com Malu Sevieri / ProWine São Paulo | dados de Felipe Galtaroça / Ideal BI, via Bloomberg Línea)

Apesar da fama do espumante, é o vinho tranquilo que mais exporta
No primeiro semestre de 2026, as exportações de vinho e espumante do Brasil cresceram 23,73% em valor, para US$ 6,79 milhões, chegando a 79 países. Os dados são do Wines of Brazil, o projeto setorial tocado pelo Consevitis-RS com a ApexBrasil. Até aí, mais um recorde. O detalhe que muda a leitura está na composição: os vinhos tranquilos avançaram 24,66%, à frente dos espumantes, que subiram 19,50%.
Aqui vai uma curiosidade que surpreende: apesar de o espumante ser o cartão de visita do Brasil lá fora, quem exporta mais em valor é o vinho tranquilo, e por uma boa distância, quase cinco vezes mais. O que mudou neste semestre não foi a liderança, que já era do tranquilo, foi o ritmo: pela primeira vez ele cresceu mais rápido que o espumante. Sinal de que o mundo começou a levar o vinho tranquilo brasileiro mais a sério.
Um alerta para o segundo semestre: a tarifa dos Estados Unidos entrou em julho e não pegou esses números ainda. O movimento é real, mas o cenário lá na frente deve vir mais desafiador.
(Fontes: A Vindima, 06/ago, com dados do Wines of Brazil / Consevitis-RS e ApexBrasil)

Paula Theotonio
O vinho do Nordeste agora fala inglês
O Vale do São Francisco, região de vinho tropical entre Pernambuco e Bahia, resolveu se apresentar na língua em que o mundo compra vinho. A região lançou a versão em inglês do e-book "The Wines of Vale do São Francisco – Brazil", escrito e traduzido pela jornalista e sommelière Paula Theotonio e pelo enólogo Euclides Neto, mestre em enoturismo. É parte das ações de divulgação internacional da Indicação de Procedência do Vale.
E o Vale tem uma história que ninguém mais tem. É o berço dos primeiros vinhos tropicais do mundo com Indicação Geográfica, reconhecida pelo INPI, com respaldo da Embrapa Semiárido e do IFSertão-PE. Ali, sob mais de 3.100 horas de sol por ano e a irrigação do Rio São Francisco, a videira não hiberna: colhe-se uva todos os dias do ano. São cerca de 47,5 milhões de litros por ano entre os associados, num portfólio de mais de 100 rótulos entre vinhos, espumantes, frisantes e sucos. Traduzir isso para o inglês é tirar o vinho tropical do posto de curiosidade regional e botá-lo na conversa lá fora.
O interessante é a jogada de comunicação: uma região pequena parou de esperar ser descoberta e foi se contar sozinha, no idioma de quem compra vinho.
(Fontes: Correio, coluna Asteriscão, 28/jun | e-book The Wines of Vale do São Francisco – Brazil, por Paula Theotonio e Euclides Neto, dados da região levantados em dez/2025)

Ningxia quer largar o apelido de "Bordeaux da China"
Lá atrás, na #16, a gente falou da China que decepcionou como compradora, o mercado que prometia tudo e explodiu como bolha. Agora a China aparece pelo outro lado do balcão, como produtora que quer nome próprio. Como contou a jornalista Eliana Castro no NeoFeed, a região de Ningxia decidiu abandonar o apelido de "Bordeaux da China" e construir uma identidade de terroir só dela.
A aposta tem uva: a Marselan, que Ningxia adotou como assinatura, com cerca de 4 mil hectares plantados, o que já coloca a China como a segunda maior produtora da casta no mundo. São 130 vinícolas e 140 milhões de garrafas por ano, metade do vinho chinês. E o recado de qualidade veio forte: das 214 medalhas da China no Decanter World Wine Awards 2026, metade saiu de Ningxia. Não à toa, LVMH, Pernod Ricard e Treasury já estão por lá.
O que interessa é o movimento de fundo: uma região emergente construiu prestígio internacional em menos de três décadas e agora recusa o papel de cópia.
(Fonte: Eliana Castro, NeoFeed, 08/ago)

O mapa dos vinhos da Odisseia
Vi o filme do Christopher Nolan sobre a Odisseia no fim de semana e achei divertidíssimo o artigo da Wine Enthusiast, pela mão de Annie B. Shapero, sobre o fato de a história poder ser contada como um mapa de vinho. Antes, um aviso: aqui é terreno de lenda. Não se sabe nem se Homero foi uma pessoa de verdade ou apenas o nome de uma tradição de poetas orais, e a viagem de Ulisses é lenda, não crônica. Mas na lenda bebem bem: na tradução de Samuel Butler, a palavra vinho aparece 176 vezes, e o artigo ligou as paradas de Ulisses a regiões e uvas que existem até hoje.
A graça está justamente aí: a fantasia se passa em lugares de verdade e quase todos fazem vinho até hoje. O ciclope Polifemo vive no Etna, o vulcão da Sicília, no sul da Itália, terra das uvas Nerello Mascalese e Carricante, uma das regiões mais cobiçadas do vinho hoje. O sacerdote Maron aparece na Trácia, no norte da Grécia, à beira do mar Egeu, onde se fazem brancos com a Assyrtiko, a uva grega da vez. E o retorno a Ítaca, no arquipélago das ilhas Jônicas, a oeste da Grécia, pode ter a uva branca Robola da vizinha Cefalônia, maior ilha do arquipélago.
O detalhe é um vinho que não é invenção do poema, é registro. O Pramnian, citado por Homero na Ilíada e na Odisseia, inclusive na poção da feiticeira Circe, leva o nome do Monte Pramnos, na ilha grega de Ikaria, no Egeu, quase encostada na Turquia. E ainda hoje uma vinícola de Ikaria resgata essa tradição, com a Fokiano, uva nativa da ilha. Um vinho que a lenda nomeou e que segue vivo três mil anos depois. Essas castas mediterrâneas antigas estão em alta. Às vezes o novo do vinho é o mais velho de todos.
E se bateu a vontade de beber a Odisseia, não só de assisti-la, dá para montar quase o roteiro. O Etna do ciclope aparece em mais de uma casa: na Mistral, que importa a Tenuta delle Terre Nere em tinto de Nerello Mascalese e branco de Carricante, e na Grand Cru, com o Etna Bianco de Carricante da Planeta. A Assyrtiko do sacerdote Maron está no portfólio grego da Cia do Vinho. Só a Robola de Ítaca eu não encontrei à venda por aqui: o retorno de Ulisses segue sendo a parte difícil da viagem.
(Fontes: Annie B. Shapero, Wine Enthusiast, pelo exercício do mapa | contexto histórico da Questão Homérica via Britannica | disponibilidade conferida na Mistral, Grand Cru e Cia do Vinho, ago/2026)
Mercado do vinho, jornalistas e assessores, me ajudem a ter notícia pra semana que vem para soltar a próxima edição do boletim tão recheada quanto essa! 😂 Meu email é: [email protected]
Um beijo e até!
