A vindima é a colheita anual das uvas destinadas à produção de vinho e marca o clímax do trabalho na vinícola. Ela acontece quando as uvas atingem os níveis ideais de açúcar e acidez, o que normalmente ocorre entre agosto e outubro no hemisfério norte.

Muito além do enoturismo, cada vez mais vinícolas têm recebido ajudantes temporários para participar dessa etapa do processo produtivo. De um lado, mais braços na colheita garantem que as uvas cheguem no ponto perfeito e superfrescas à prensa. Do outro, pessoas curiosas, interessadas em aprender mais sobre agricultura e vinho, e famintas por uma pausa com mais tempo na natureza, se inscrevem para esse trabalho.

Foi assim que fui parar em Burgenland, na Áustria, há quase dois anos, colhendo uvas a partir das 3h da manhã durante seis semanas. Minha paixão pelos vinhos naturais começou em 2020, mas foi em 2024 que consegui um “estágio” na Gut Oggau, um dos nomes pioneiros da vinificação sem aditivos no país.

A rotina da colheita

Junto com um time de 15 pessoas de diferentes nacionalidades, minhas tarefas iam muito além de colher uvas. Eu também pisava as uvas, lavava as caixas, ajudava na triagem para remover impurezas antes de os cachos entrarem na máquina que separa as uvas dos galhos, transferia líquido dos garrafões de vidro para os barris, lavava a prensa e, às vezes, ainda cozinhava o jantar para o grupo. Pisar as uvas, aliás, era bem terapêutico.

Apesar do horário desumano de início do trabalho, precisávamos começar às 3h da manhã justamente por causa das uvas. Se são colhidas em temperaturas muito altas, elas começam a “suar” e fermentam mais rapidamente, o que prejudica a qualidade do vinho. Depois de colhidas, chegam à vinícola e vão direto para o processamento. Tudo precisa estar bem fresco; se não podem ser processadas imediatamente, ficam em um caminhão refrigerado. No fim das contas, tudo gira em torno delas.

O lado menos romântico da experiência

O turno normalmente ia até umas 11h, com uma pausa curta no meio. Em tese, o resto do dia ficava livre para trabalhar nas minhas coisas. Na prática, era quase impossível. O mais puxado nem era só o trabalho físico, mas o sono. O corpo até aguentava, mas o cognitivo ficava completamente embaralhado. Eu fazia muito menos do que imaginava.

Vale dizer também que esse tipo de experiência está longe de ser um intercâmbio glamouroso. No meu caso, recebi cerca de 700 euros por mês, o que não pagou nem a passagem. Não havia comida incluída, só os jantares de terça e quinta, e a hospedagem foi paga à parte. Como eu quis ficar numa pensão, gastava cerca de 120 euros por semana com isso.

A Gut Oggau produz entre 50 mil e 70 mil garrafas por ano. Não é uma produção gigantesca, mas também não é minúscula. Há uma certa estrutura, o que explica a presença desse time anual de estagiários. Eu fiquei 45 dias, mas tinha gente ali há seis meses, ajudando no trabalho agrícola muito antes de chegar o momento mais importante do ano.

Quase ninguém levava muito a sério a ideia de dormir cedo. O grupo era jovem, internacional e mais baladeiro do que disciplinado. Teve uma vez em que dormi às 18h porque não aguentava mais, mas foi exceção. O que o pessoal fazia mesmo era cochilar no meio da tarde. E, às terças e quintas, a vinícola abria vários vinhos para a equipe nos jantares, então já viu.

Como encontrar uma vindima

Nos últimos anos tenho visto cada vez mais oportunidades como essa surgindo. Em geral, os produtores anunciam vagas em seus perfis no Instagram entre fevereiro e março. Foi assim que encontrei a da Gut Oggau, já que acompanhava o trabalho deles por lá. Para quem se interessa, minha sugestão é começar conhecendo melhor a história da vinícola e da região para ver se existe afinidade. Depois, vale seguir o produtor e se candidatar quando aparecer o chamado, ou até mandar uma DM perguntando se existe algum programa do tipo.

O meu recorte é o mundo dos vinhos naturais, que costuma envolver processos mais manuais e, por isso, depende de mais gente durante a vindima, o que provavelmente facilita esse tipo de experiência.

Outra possibilidade para encontrar trabalhos semelhantes em fazendas ou vinhedos é o Workaway, uma plataforma que conecta viajantes a pessoas e projetos ao redor do mundo em um sistema de troca de trabalho por hospedagem e comida, dentro de uma proposta de intercâmbio cultural.

Para mim, foi fisicamente puxado, mas mentalmente muito relaxante. Acordar muito cedo, ver o sol nascer, passar o dia inteiro lidando com uva, suco, caixas e mangueiras e terminar a noite jantando e falando bobagem com gente do mundo inteiro tem algo de muito especial.

Recomendo para pessoas curiosas, aventureiras e nerds do vinho que gostam de aprender colocando a mão na massa. Porque, depois de participar de uma vindima, é impossível olhar para uma taça de vinho do mesmo jeito.

Babi Mattivy é empreendedora brasileira, mora na Espanha e é apaixonada por vinhos naturais. Trabalha com marcas independentes, especialmente no universo de alimentos e bebidas.